Concursos públicos estão na boca do povo hoje em dia. Não só tem sido aberto um número considerável de vagas em órgãos públicos, como também tem sido oferecidos salários bem acima da média de mercado. E concursos se tornam um atrativo ainda maior quando se considera a estabilidade típica desse tipo de emprego.
Tal realidade tem levado os concursos a um papel de destaque no cenário nacional. Como bem disse o Tiago Gomes, é impressionante o movimento que se faz em torno do Concurso Público no país. Pois é, e esse destaque de concursos públicos e concurseiros tem provocado um racha ainda maior entre adeptos da iniciativa privada e do emprego público, algo que não existia antes, ou pelo menos não era tão evidente.
Bom, muita gente, neste país, tem a opinião de que funcionário público é “vagabundo”. Isso meio que faz parte do senso comum e está presente em obras de literatura há décadas. Porém, uma novidade nesse cenário é que os funcionários públicos, hoje, pensam que as pessoas que ficam na iniciativa privada são incompetentes, são pessoas que não têm capacidade de passar em um concurso público e poder desfrutar do excelente salário e da sólida estabilidade de seus cargos. Não é difícil encontrar exemplos dessa “briga”, basta visitar alguns fóruns de discussão e comunidades do Orkut que já se percebe.
Minha opinião é de que os dois lados exageram. E tal discussão não leva a lado nenhum. Concurseiro que reage chamando de incompetente alguém que está questionando a existência de um órgão ou empresa pública não está ajudando na discussão. Pode acontecer sim de aquele órgão ser desnecessário ou aquela empresa pública ser maléfica. Isso deve ser discutido com argumentos objetivos, não com ataques ao adversário. E é bom lembrar que, como eu já disse, estamos com um governo com uma tendência mais estatizante, pode ser que numa mudança de governo esses papéis sejam rediscutidos em uma instância superior. E aí? Essas coisas podem acabar sendo discutidas sim, como já foram em passado recente.
Outro argumento de concurseiros, já citado anteriormente, do excelente salário e da sólida estabilidade, também não cola. Muitas vezes (nem tantas hoje em dia), a iniciativa privada paga, sim, salários acima de um cargo público. Além disso, a flexibilidade inerente à iniciativa privada pode proporcionar ganhos futuros muito acima do que aconteceria no formatado plano de carreira do funcionalismo público. Chamar de incompetente aquele que está ganhando mais, ou que está com uma perspectiva muito boa de ganhar mais, revela desinformação. Aliás, eu mesmo já passei por isso, pois já cheguei a deixar de assumir dois cargos públicos para os quais eu tinha sido aprovado em concurso justamente porque estava recebendo mais na iniciativa privada.
Do outro lado, ficar chamando concurseiro ou funcionário público de “vagabundo” também é uma grande injustiça. Não vivemos em um país fácil. Mas ainda assim, é um país livre que oferece algumas oportunidades diferentes. Uma dessas é o concurso público. Pessoas que querem estabilidade e um salário que é normalmente alto, e que se dedicam a seguir os regulamentos e ultrapassar outros candidatos em uma disputa justa, não devem ser discriminadas. Além disso, tem muito funcionário público por aí que trabalha duro e corre riscos. Pense em quem trabalha na polícia ou no sistema prisonal, que tem que lidar com a criminalidade cara a cara. Pense em quem trabalha na Justiça e tem que encarar mesas atulhadas de papel, por conta de uma Justiça sobrecarregada. É, não é fácil. Muitas vezes é preciso fazer hora extra e trabalhar no fim-de-semana sim senhor!
Enfim, o texto ficou longo, mas eu concluiria dizendo que essa guerra é tola. Melhor seria se nos concentrássemos em argumentos mais fundamentais e construtivos, como qual deveria ser o tamanho do estado, qual atividade deveria ser feita pela iniciativa privada ou pública e quais deveriam ser as prioridades do governo, para daí sim definir que tipos de cargos públicos deveríamos ter. Corporativismo só acaba levando à ineficiência e tornando todos nós mais pobres e um estado mais eficiente melhoraria a vida de todos nós.